A cor do calçado era a diferença, o modo como pulsava além do vidro mesmo em dias esfumaçados ou quando o sol caía e as ruas eram só elas. Mas a cor não espelhava a verdade, só o fim dela; a feiura era o seu valor, essa raridade de ser feio num mundo de belos já nascidos belos, onde o ruim há de ser calculado.
Ainda assim sempre vem quem o queira, e num fim de semana de avenidas amarelas um homem chegou na loja e o desejou; sentou num banquinho de couro moído e o vendedor lhe alcançou o modelo e seus braços eram brancos demais, finos demais. As solas pareciam mornas, e já descalço o homem colocou o pé para o fundo quando o calçado urrou em dor, revelando ser não um sapato normal, mas um homem de 42 anos, formado em Economia, mestre e doutor em Economia Aplicada, além de ser, obviamente, o maior especialista em disfarces do mundo no qual viviam.
Todos na Diocese chegaram ali assim de suas habilidades, do seu valor; os diáconos e abades, mesmo os leigos ou o bispo, redondo como não se esperava; e esse valor era numeroso, incluia as habilidades humanas e a própria fé e as coisas invisíveis e impossíveis de se explicar – ao menos em nossa linguagem.
A única exceção era ele, que sofria a humilhação e o preconceito dos irmãos, afinal seu lugar se dera na indicação de um superior.
Quem o indicara fôra Deus.
Texto publicado na Revista Samizdat de Março.
I’m in a wide open space, I’m staring
There’s something quite bizarre I cannot see
Mansun – Wide Open Space
Em uma hora de suas vidas eles se acharam, e era como se aquilo seguisse as linhas de uma história e não apenas isso, mas a exigência inexplicável de um Deus rigoroso e inflexível. Se atravessavam nas ruas, se viam de passagem, e sabiam os dois de cada um mesmo longe quando estavam; sempre souberam desse amor, dessa ordem que era para chegar e um dia chegou.
Nesse momento enfim se beijaram e o namoro passou em poucas luas, como se nada signicasse, e para eles na dor era ruim conceber que a vida não julga a passagem e sim o peso; pois o peso há, sem dúvida, e ele encerra uma verdade – no breve romance a vida possuiu sentido, e no Universo de coisas boas e más e ainda assim ilusórias houve um segundo de convicção, de uma clareza perigosa e marcante, não só para eles como para quem planejou essa história e que se perderá para sempre como o mundo no Tempo, sobrando apenas aqueles beijos doloridos como testemunho de algo real.
O Delegado e a Fornalha
Published April 12, 2012 Minicontos Leave a CommentTags: Minicontos, Surreal
O Delegado esperou e no Tempo indagava se a espera muda as coisas, se as muda mesmo. Depois perguntou se ela não desconfiava que as fornalhas dos campos de concentração eram usadas para incinerar corpos; ela disse não, pois era dali que vinha a comida. Então o Delegado olhou para o lado e ficou olhando.
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Quando Odorico viu a empregada da casa ao lado sair nua do chuveiro, aos seis anos de idade, supreendeu-se ele com a primeira visão de uma vagina, cujos pêlos estrelavam as virilhas e açoitavam displicentemente as bordas do umbigo.
Muitos anos depois Odorico se recordaria dessa vagina cabeluda e de como ela o assombrou e intimidou, e de como no fim as coisas são indistinguíveis senão a própria percepção. Ainda lembraria mais um pouco, do ar frio no corredor mesmo do sol ao lado, e isso porque naquela hora se revelou a sua missão, o seu chamado – de um dia ser depilador profissional, o melhor deles.
Conto publicado na Revista Samizdat de Fevereiro.
Eram os seios novos, os amigos novos; eram as cores vivas e renovadas, os amarelos, laranjas e vermelhos. Era isso e a dificuldade em imaginar o quanto era miserável, nos mil valores da vida e da palavra; nós olhávamos e viamos nela a expressão do sol e da lua, assim de cada segundo ser uma continuidade de perfeiçőes.
Disso ela vivia longe, para lá de si em seu mundo, e mantinha distantes homens e mulheres abaixo; nessa distância nós a julgávamos mal, alguém mal, uma rainha ou princesa em excesso. Em nosso favor, daqueles anos, recordo das insistentes aproximações, a maioria delas em madrugadas cuja lei era o cigarro, e das recusas mesmo para as mais ingênuas conversas; creio eu, a menina não confiava na simplicidade, e os sentimentos, quando existiam, eram uma receita com propósito claro e maldoso, e não o ingrediente.
Na verdade ela não era miserável, isso sabíamos mesmo de nada falar; era alguém como nós, uma pessoa se apagando, mas apenas o compreendemos quando o carro dela girou e só parou ao deixar de ser carro. Era uma madrugada fria e cansada, e ela desfilara bebâda e descalça em um baile, as unhas pintadas como o sorriso. Os homens que brilhavam no escuro demoraram horas para a livrar das ferragens, e quando saiu era uma nova pessoa, ao menos para nós, que nos sentíamos mais próximos, pois a tragédia é a menor distância.
Pedrinho e o Clitóris Radioativo
Published March 18, 2012 Cartoon , Internets 1 CommentTags: cartoon, charges, humor
‘As Aventuras de Pedrinho’ é uma série de livros infantís que faz paralelo com Harry Potter, Alice no País das Maravilhas e Os Melhores Boquetes da Bahia I, II e III (o IV deixou a desejar). Foi reconhecido pelo escritor e crítico Henry Alfred Bugalho como “O único livro com méritos para estar nas mais reconhecidas bibliotecas do mundo, assim como em intestinos humanos”*.
Pedrinho e o Clitóris Radioativo narra a história de Pedrinho, um adolescente de 11 anos que busca descobrir o porquê dos pêlos de seu cachorro estarem caindo, assim como os cabelos do seu pai e da sua mãe, como os dele próprio; quando descobre que é porque o clitóris da empregada Gerusa é radioativo, a história está apenas começando.
* A autoria desta frase está sendo questionada por Henry Alfred Bugalho em processo judicial.


